Agradecendo o Jubileu, na graça que continua
Homilia na celebração conclusiva do Jubileu Extraordinário da Misericórdia, XXXIII Domingo do Tempo Comum

A graça deste ano e o seu júbilo serão viver misericordiosamente, inteiramente, definitivamente. Como quem encontrou a Cristo e a si próprio. Como quem se deixa encontrar por Ele, aqui mesmo onde estamos e tal e qual como estamos, nós e Ele. Um amor inteiro, uma alegria plena.
Precisamente onde estamos e a fazer o que devemos. Como Paulo escrevia aos tessalonicenses, porque há vidas a sustentar, a nossa e a dos outros, espíritos incarnados como somos. E há um mundo a concluir, uma criação a completar. Dia a dia, trabalho a trabalho, a “carne” que somos e assim se espiritualiza, com responsabilidade que a faça verdadeiramente nossa e com misericórdia que a partilhe e garanta. Na verdade, só o amor será infindo.
A bem dizer, o Jubileu da Misericórdia começou com a vida do Filho de Deus neste mundo. Assim inaugurou o Reino e assim o continua agora, no Espírito que nos legou na cruz. Expirando, fez-nos viver no mesmo impulso, para o Pai e para os outros. Misericordiosamente, pois nos atinge assim, pequenos e míseros – e por nós a todos, na carne do mundo, que sofre e definha.
A graça deste Jubileu proporcionou-nos decerto – e ainda mais proporcionará, porque as coisas valem sobretudo pelo que sobram – a qualidade absoluta de vivermos definitivamente, convivendo misericordiosamente. Há meio século falava-se muito na “dinâmica do provisório”, no “já e ainda não”. Para que o efémero garantisse o eterno, para que o hoje fosse quase amanhã…
Podemos retomar tais motivos, quando realmente nos alimentam a esperança, porque a preenchem de caridade. Na verdade, quem ama não teme. E o amor alimenta-se pelo dom de si, em cada circunstância e momento. Quando Jesus se detinha diante da necessidade de alguém, abria ali mesmo e em cada terra o pleníssimo céu que transportava. Esta a qualidade da misericórdia, que diante de cada fragilidade dos outros atualiza o amor de Deus por cada um e todos. Quem assim a vive e reparte, conhece e saboreia a própria paz. Por isso falamos propriamente de Jubileu e júbilo.No Evangelho que escutámos, Jesus advertia que a magnitude ou beleza de quanto se erga neste mundo não consegue garantir-se só por si. Matéria sem espírito e obra sem alma, são sinais de derrocada. A admiração que causem dura o que dura, bem pouco em geral.
O coração de quem faz e de quem admira tem de estar livre, definitivamente livre, para que a admiração perdure. E esta liberdade só a misericórdia a proporciona, pois nunca se detém nas coisas pelas coisas, mas toma-as a todas como dons para os outros e muito além delas, apenas valendo pelo que assinalam e oferecendo assinalam. O esprito que nos perfaz no que fazemos, esse sim perdura, no amor divino e além das figuras. Caiu aquele templo, não o Deus que lá se cultuava, nem a oração que de lá se elevava, nem a congregação que proporcionava, assim fossem legítimas e puras.
A beleza é o esplendor da verdade. E a verdade é a relação absoluta que se consegue no Espírito de Cristo, perfeitíssimo dom deste Jubileu. Em cada circunstância e sempre além dela. E circunstanciando como Deus o faz, preferindo o ínfimo para chegar ao máximo, priorizando o pobre para ser gratuito; e sendo gratuito como o próprio Deus, que nos ama assim e apenas porque sim.
Deste modo libertaremos o tempo, como que eternizado em cada circunstância. Definitivas ficam as coisas, porque vividas a partir do “fim”, pascalmente inteiras. Fim que é outro nome da misericórdia divina em nós realizada e por nós redistribuída, na pequenez do que somos e os outros também, na fragilidade do mundo que é apenas semente do que há de ser planta, flor e fruto. Na carne que somos, na carne dos outros, que sentem e sofrem.

Há uma única maneira de manter e acrescentar a graça deste Jubileu. É aplicá-la agora com misericórdia redobrada na cidade de todos, na cidade para todos. Trabalhando com Deus e no sentido dos outros. Para que as famílias sejam tomadas como primeiríssimo bem da sociedade, garantindo a cada uma casa, subsistência e possibilidade de gerar vida, educar filhos e cuidar dos idosos. Para que a rua não se torne “casa” de ninguém, apenas com o céu por teto e o frio por cobertor. Para que as nossas ruas e praças se tornem, isso sim, casa de todos, no sentido convivencial e intercultural que importa alcançar. Para que o trabalho seja tomado como condição indispensável de realização humana e assim mesmo proporcionado, digna e justamente exercido e recompensado. Para que, a quem esteja retido por doença ou prisioneiro por pena, não falte visita e reabilitação. Para que, em suma, do ventre materno à sua finalização neste mundo, a existência de cada um seja legalmente protegida e solidariamente amparada, como valor que é por si só e nunca relativizada pelos outros ou até pelos próprios. Ouvimos um profeta a advertir do fim com imagens fortes… Era realmente o fim daquele mundo que lhes tocava, finado em si mesmo pela cobiça de alguns e a desgraça de muitos. A advertência fica, mas connosco não será assim, se formos doutro modo. Como havemos de ser, também com a graça deste Jubileu que, com a misericórdia, nos recria a nós, recriando o mundo. Caso a caso, família a família, comunidade a comunidade. Na dinâmica finalizadora da provisoriedade em que agora estamos, como possibilidade de mais, como possibilidade de sempre.
– Como são convincentes os testemunhos que ouvimos, de jovens e adultos que regressam de tempos oferecidos, de férias ou ainda mais, em serviço voluntário e ação gratuita ao serviço dos outros, longe ou perto! – Como realizam a paz, como alargam o coração, como assinalam o Reino! – Que convincentes são os testemunhos diários de quem não esquece os que estão sós, visita os doentes e os presos, se interessa positivamente por familiares, por colegas de trabalho ou vizinhos de rua!
Têm tempo para procurar e acolher os outros, porque em todos divisam uma presença definitiva, esperada ou inesperadamente definitiva. Na misericórdia que os tocou e assim mesmo repartem vivem já no tempo de Deus eterno e sabem o que é a paz. (Mesmo no meio de tanta guerra, como há dias me testemunhava um bispo sírio, que não abandona os poucos que sobram, pois assim mesmo garante os muitos que hão de ser, com todos e para todos. Dizendo-me também que nunca se sentiram tão unidos, como corpo vivo de Cristo no corpo sofredor daquelas trágicas paragens.)
Concluamos então e agradecendo o Jubileu, na graça que continua. E da única maneira legítima de o fazer, preenchendo ainda mais quanto fizermos como Igreja com sentimentos e práticas de misericórdia. Da catequese à celebração e da celebração à vida e à convivência, seja tudo repassado pela misericórdia divina, em Cristo inteiramente revelada e no seu Espírito inteiramente oferecida – a nós e aos outros, reciprocamente. Sobretudo, porque assim mesmo é Deus e só assim nos finalizamos nós, no significado pleno do que somos e havemos de ser.
Mais consciência desta verdade primeira e última, maior exercício dela em práticas autenticamente cristãs, nisto atuará a graça do Jubileu da Misericórdia. E assim mesmo se prolongará no caminho sinodal que percorremos e em breve terá mais uma importante etapa.
– Assim nos ajude e confirme a Mãe de Misericórdia!

Sé de Lisboa, 13 de novembro de 2016

+ Manuel, Cardeal-Patriarca

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